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Déficit público: o monstro que talvez não seja tão assustador assim

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                 Por Rogério Buchala

(Economista, Mestre e Doutor pela UNESP – Coordenador dos Cursos de Administração e Ciências Contábeis da FAI)

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Em toda eleição acontece a mesma coisa. Alguém sobe ao palanque, aponta para os números das contas públicas e anuncia, em tom dramático, que o país está gastando mais do que arrecada. Logo surgem previsões apocalípticas: quebra da economia, explosão da dívida, aumento inevitável de impostos e um futuro sombrio para as próximas gerações.

Mas será que déficit público é realmente esse vilão todo?

Antes de responder, vale uma pergunta simples. Se uma família gasta mais do que recebe por vários meses seguidos, ela quebra? Em algum momento, sim. Se uma empresa faz isso continuamente, também corre sério risco de falência.

O problema começa quando tentamos aplicar exatamente essa mesma lógica a um governo nacional.

Uma família usa dinheiro. Uma empresa usa dinheiro. O governo federal, por sua vez, possui instrumentos que nenhum cidadão possui: ele arrecada impostos, emite títulos públicos e, por meio do Banco Central, opera dentro de um sistema monetário que ele próprio regula.

Isso não significa que o governo possa gastar sem limites. Significa apenas que comparar o orçamento de um país ao orçamento de uma casa é uma simplificação que esconde mais do que explica.

O déficit público ocorre quando o governo gasta mais do que arrecada em determinado período. A questão é que esse gasto não desaparece. O dinheiro gasto pelo setor público se transforma em renda para alguém. Salários de professores, aposentadorias, obras de infraestrutura, compras governamentais e investimentos públicos acabam chegando às empresas, aos trabalhadores e às famílias.

Imagine uma cidade onde o governo decide construir uma ponte. O gasto público gera emprego para operários, renda para fornecedores, lucro para empresas de engenharia e movimentação para o comércio local. Nesse caso, o déficit não é apenas um número negativo numa planilha; ele representa atividade econômica.

É justamente por isso que muitos economistas afirmam que a pergunta correta não é “há déficit?”, mas sim “para onde está indo esse dinheiro?”.

Um déficit usado para ampliar infraestrutura, melhorar a educação, fortalecer a saúde ou aumentar a produtividade da economia pode gerar benefícios duradouros. Por outro lado, gastos ineficientes, desperdícios e privilégios também podem produzir déficits sem retorno social relevante.

O verdadeiro debate deveria estar aí.

Outro mito bastante popular é a ideia de que a dívida pública necessariamente será paga pelos nossos filhos e netos. A realidade é mais complexa. Grande parte da dívida pública brasileira está nas mãos de brasileiros: fundos de investimento, bancos, fundos de pensão e investidores institucionais. Quando o governo paga juros, o dinheiro permanece circulando dentro da própria economia.

Isso não elimina os problemas da dívida, mas mostra que a questão está longe de ser tão simples quanto costuma aparecer nos discursos políticos.

Existe, porém, um limite real para os gastos públicos: a inflação.

Quando a economia está produzindo próximo de sua capacidade máxima e o governo continua injetando recursos sem aumento correspondente da produção de bens e serviços, os preços tendem a subir. É nesse ponto que o déficit deixa de ser apenas uma ferramenta econômica e passa a representar um risco.

Por isso, o debate sério não deve ser entre “gastar tudo” ou “cortar tudo”. O desafio é encontrar equilíbrio.

Nenhum país se desenvolveu apenas cortando gastos. Da mesma forma, nenhum país prosperou ignorando completamente a responsabilidade fiscal. As grandes economias do mundo alternam períodos de expansão e contenção, utilizando o orçamento público como instrumento de desenvolvimento.

À medida que a campanha eleitoral se aproxima, o cidadão deve desconfiar tanto daqueles que prometem resolver todos os problemas distribuindo dinheiro quanto daqueles que apresentam qualquer gasto público como uma tragédia nacional.

Déficit público não é, por si só, sinônimo de desastre. Também não é garantia de prosperidade.

Como quase tudo na economia, a resposta depende menos do tamanho do número e mais da qualidade das escolhas feitas com ele.

Talvez a pergunta mais importante não seja quanto o governo gasta, mas sim o que a sociedade recebe em troca desse gasto.

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