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A criança que cresceu se sentindo insuficiente pode virar um adulto que vive pedindo desculpas por existir

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Por Adriano de Oliveira

Psicólogo Clínico e Neuropsicólogo

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CRP: 06/150383

Instagram: @psicologoadrianodeoliveira

A insegurança na adolescência não termina automaticamente quando a pessoa completa 18 anos. Muitas vezes, ela apenas muda de roupa, sai da sala de aula e entra no ambiente de trabalho, sai das amizades juvenis e entra nos relacionamentos amorosos, sai do medo de não ser aceito pelo grupo e vira medo de não ser bom o bastante para ocupar espaços, tomar decisões, dizer não e construir uma vida com autonomia.

O adolescente que cresce se sentindo insuficiente pode se tornar um adulto altamente funcional por fora, mas profundamente frágil por dentro. Ele trabalha, entrega resultados, assume responsabilidades, cuida de pessoas, sorri em público e até parece seguro mas, internamente, vive negociando com uma voz silenciosa que repete: “você ainda não é bom o suficiente”, “vão descobrir que você não dá conta”, “se você errar, será rejeitado”.

Essa insegurança pode afetar diretamente a vida profissional.

Adultos que foram adolescentes inseguros podem ter dificuldade em se posicionar, pedir reconhecimento, negociar salário, assumir liderança ou apresentar suas ideias. Muitos se tornam excelentes executores, mas evitam protagonismo por medo de julgamento, outros se tornam perfeccionistas, trabalhando além do limite para tentar provar valor.

O problema é que viver tentando provar valor é diferente de reconhecer o próprio valor.

Nos relacionamentos, a insegurança também cobra um preço alto. Quem cresceu com medo de não ser amado pode desenvolver dependência emocional, ciúme excessivo, medo de abandono ou dificuldade de confiar. Pequenos silêncios viram ameaças, uma demora para responder mensagem vira sinal de rejeição, um conflito comum vira sensação de fim, e a pessoa adulta passa a amar em estado de alerta, como se precisasse vigiar o tempo todo para não ser deixada para trás.

A insegurança também interfere na capacidade de fazer escolhas. O adulto inseguro pode ter medo de mudar de carreira, terminar relações ruins, iniciar projetos, empreender ou assumir novos desafios. Não porque não tenha capacidade, mas porque aprendeu a duvidar de si antes mesmo de tentar. Ele imagina o fracasso antes da possibilidade. Enxerga a crítica antes do aprendizado. Sente vergonha antes da experiência.

Muitas dessas marcas nasceram em ambientes onde o adolescente foi comparado, invalidado, humilhado, cobrado em excesso ou pouco reconhecido. Famílias, escolas e relações sociais podem, mesmo sem intenção, construir a crença de que amor e valor dependem de desempenho. Quando isso acontece, o jovem aprende que precisa ser excelente para ser aceito, forte para ser respeitado e útil para ser amado.

Na vida adulta, essa lógica se transforma em exaustão emocional. A pessoa passa a viver para agradar, evitar conflito, corresponder expectativas e não decepcionar ninguém. Diz “sim” querendo dizer “não”. Aceita menos do que merece. Permanece em lugares que ferem. Carrega culpa por descansar. Sente medo de ser vista de verdade, porque acredita que, se alguém conhecer suas fragilidades, irá embora.

A boa notícia é que insegurança aprendida pode ser ressignificada. A psicoterapia tem um papel essencial nesse processo, porque ajuda o adulto a identificar a origem dessas crenças, compreender suas dores antigas e construir uma relação mais saudável consigo mesmo. Não se trata de apagar o passado, mas de parar de obedecer a ele como se fosse uma sentença definitiva.

Cuidar da insegurança na adolescência é prevenir adultos adoecidos emocionalmente e cuidar da insegurança na vida adulta é permitir que aquela parte ferida, que um dia não se sentiu suficiente, finalmente seja escutada, acolhida e fortalecida. Porque ninguém deveria passar a vida inteira tentando merecer o direito de existir.

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