Tiago de David
Comunicador / Professor Mestre em Comunicação / Docente do Curso de Publicidade e Propaganda da FAI
Essa provocação fundamental encontra eco nos estudos de Harry Pross (1923-2011), um dos mais importantes jornalistas e pensadores da Ciência da Comunicação na Alemanha na segunda metade do século XX. Seu trabalho inspirou o professor e pesquisador brasileiro Norval Baitello Junior que, em seu livro A Era da Iconofagia, descreve a Teoria das Três Mídias, essencial para compreendermos o nosso papel no mundo das conexões.
Segundo Baitello, a comunicação humana, em sua essência mais pura, acontece através da mídia primária: o próprio corpo humano. É a comunicação que se dá pelos gestos, pelo olhar, pelo tom de voz e pela simples presença física. Quando a humanidade sentiu necessidade de registrar o pensamento, criou a mídia secundária (que exige um aparato para ser produzida, mas não para ser consumida), como o livro, o jornal e a revista. Por fim, chegamos à mídia terciária (que exige aparatos tecnológicos nas duas pontas), englobando a comunicação mediada pela energia elétrica, celulares, computadores e recursos audiovisuais.
A tecnologia (mídias secundárias e terciárias) nasceu com um propósito nobre: potencializar a mídia primária. Elas foram criadas para ampliar a voz, eternizar a imagem e permitir a comunicação à distância. No entanto, em tempos de aceleração digital, os efeitos de não nos comunicarmos presencialmente têm gerado uma legião de “solitários acompanhados”. Pessoas que estão lado a lado acabam por não conversar, ou sequer se olham. Nos espaços públicos em que a presença física deveria ser o pilar da interação — como faculdades, escolas e mesas de jantar —, as mentes acabam abduzidas, sugadas para qualquer outro lugar aonde a janela eletrônica as levar.
É exatamente neste ponto que entra a célebre máxima do filósofo e teórico canadense Marshall McLuhan: “O meio é a mensagem”. McLuhan nos ensinou que o formato pelo qual transmitimos uma informação molda a sociedade e o nosso comportamento muito mais do que o conteúdo em si. Se o nosso meio principal de interação hoje é uma tela individual e veloz, a “mensagem” silenciosa que estamos assimilando é a da impaciência, do isolamento e das relações rasas. Ao terceirizarmos nossas interações para as telas, as pessoas estão se esvaziando daquilo que é o alicerce da comunicação interpessoal: a presença.
O fato é que o corpo, sendo a mídia mais perfeita de todas, acabou escanteado. As ferramentas que deveriam nos aproximar criaram um abismo na proximidade, separando famílias inteiras que hoje dividem o mesmo sofá, mas estão isoladas em suas próprias telas, fatiadas como se fossem janelas abertas em uma área de trabalho de um computador. A solidão na presença física é a grande e trágica novidade dos tempos atuais. Pais e filhos, casais, profissionais e estudantes ocupam a mesma coordenada geográfica, mas mantêm suas almas conectadas a quilômetros dali. Ter acesso digital ou “estar junto” no mesmo cômodo já não significa ter a presença real do outro.
A mensagem atual é a da “ausência intermediada”, um sintoma que aponta para um futuro AInda incerto. Contudo, é urgente resgatarmos uma verdade imutável: o corpo é, e sempre será, a principal mídia. Ele é o ponto de partida de onde tudo nasce e o destino para onde tudo deve voltar.
A tecnologia e as mídias terciárias são inegavelmente fantásticas e essenciais; elas encurtam o mundo, democratizam o acesso e expandem nossos horizontes. Mas elas devem atuar como pontes, nunca como moradas. A comunicação humana só atinge sua validade plena e transformadora quando acontece de pessoa para pessoa — no encontro dos olhares, na leitura sutil das feições e no calor do momento. Que saibamos usar as telas para potencializar nossos encontros, e não para substituir a tecnologia mais avançada e insubstituível que já existiu: nós mesmos.






































