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O Espetáculo da Tragédia

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“Se o mal é contagioso, o bem também é.

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Deixemo-nos contagiar pelo bem!”, Papa Francisco

Everton Santos (*)

O suicídio é um fenômeno complexo de saúde pública, atravessado por fatores psicossociais, econômicos e culturais. Por sua gravidade, há consenso internacional, inclusive com manuais da Organização Mundial da Saúde (OMS), sobre a necessidade de cautela e responsabilidade ao abordar o tema nos meios de comunicação. No entanto, a prática do jornalismo contemporâneo frequentemente ignora esses parâmetros essenciais, transformando a dor humana em insumo para o entretenimento sensacionalista e o engajamento digital.

Essa busca desenfreada por ‘likes’, visualizações e engajamento chega a beirar a irresponsabilidade jornalística em uma era de fluidez das relações éticas e sociais. E isso não é apenas uma opinião sensata, mas um fato comprovado cientificamente. Pesquisas realizadas com acompanhamento de organismos internacionais, como a OMS, constaram que um elevando percentual de matérias divulgando casos de suicídio podem contribuir para o Efeito Werther, termo que faz alusão ao livro Os Sofrimentos do Jovem Werther, escrito por Johann Wolfgang von Goethe, em 1774, que promoveu aumento óbitos por suicídio por imitação ou contágio.

Todavia, da mesma forma que a mídia pode promover um resultado nocivo, ela também tem a possibilidade de gerar o Efeito Papageno, focado no estigma zero, no incentivo à busca de ajuda e na prevenção.

A precarização na abordagem das informações correlaciona-se com a ausência da obrigatoriedade do diploma de jornalismo no Brasil. A desregulamentação da profissão enfraqueceu o compromisso ético e o rigor técnico que a formação acadêmica exige, abrindo espaço para a produção massificada de conteúdos sem o devido filtro humanitário. Quando o exercício do jornalismo prescinde do conhecimento aprofundado sobre deontologia e diretrizes de saúde pública, a notícia perde sua função social e passa a ser guiada unicamente por métricas imediatistas.

Somado a isso, vive-se o auge da cultura do engajamento, na qual a busca desenfreada por likes, retweets e visualizações dita a linha editorial. Para capturar a atenção em um ambiente saturado de estímulos, veículos e criadores recorrem a títulos alarmistas e abordagens sensacionalistas, ignorando o risco real de contágio social e vitimização secundária.

Esse panorama encontra perfeita tradução no pensamento de Zygmunt Bauman sobre a sociedade líquida. Na modernidade líquida, marcada pela efemeridade das relações e pela fragilização dos laços comunitários, a informação é tratada como mercadoria descartável. A empatia e a responsabilidade social são solapadas pela velocidade e pelo consumo instantâneo. Em um ecossistema digital fluido, a tragédia alheia torna-se um espetáculo momentâneo voltado ao lucro e à audiência, em flagrante desrespeito à vida humana.

Diante desse cenário, torna-se urgente resgatar a ética e a função social do jornalismo. A cobertura de temas sensíveis como o suicídio não pode ser deixada ao sabor dos algoritmos e do lucro.

(*) Everton Santos é bacharel em Jornalismo, Publicidade e Propaganda, licenciado em Letras e pós-graduado em Educação Contemporânea com ênfase em Inteligência Sócioemocional. Atua como professor de ensino fundamental e médio.

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