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Seu filho não perdeu o foco: o celular pode estar treinando a atenção dele para desistir rápido

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Adriano de Oliveira

Psicólogo Clínico e Neuropsicólogo

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CRP: 06/150383

Instagram: @psicologoadrianodeoliveira

“Ele não consegue mais ficar dez minutos estudando.” “Começa uma tarefa e logo pega o celular.” “Assiste a uma aula, responde uma mensagem, abre um vídeo e depois diz que não lembra de nada.” Frases assim aparecem cada vez mais nas conversas de pais. A interpretação mais fácil é chamar isso de preguiça ou falta de disciplina. Mas existe uma pergunta mais importante: que tipo de atenção estamos treinando diariamente?

A adolescência é um período de intensa reorganização cognitiva e emocional. Funções executivas como planejamento, controle inibitório, memória de trabalho e capacidade de sustentar metas ainda estão sendo refinadas. Ao mesmo tempo, novidades e recompensas sociais possuem grande poder de captura. Isso não torna o adolescente incapaz de se controlar. Significa que o ambiente influencia sua forma de funcionar.

O celular moderno não é apenas um aparelho. É um ambiente de estímulos. Notificações, vídeos curtos, mensagens, curtidas e rolagem infinita competem pela atenção. Cada interrupção parece pequena, mas o cérebro precisa abandonar uma tarefa, processar outro estímulo e depois reconstruir o contexto anterior. Quando isso se repete muitas vezes, estudar uma página inteira ou permanecer diante de uma tarefa difícil pode começar a parecer lento demais.

O risco é confundir estimulação com aprendizagem. O adolescente pode passar horas recebendo informação e, ainda assim, exercitar pouco a concentração profunda. Pode saber rapidamente sobre muitos assuntos e ter dificuldade para sustentar raciocínio, organizar prioridades ou tolerar não compreender algo imediatamente.

Há também um componente emocional. As redes não disputam apenas atenção; disputam relevância social. Ser incluído, curtido, respondido ou ignorado toca em necessidades reais de pertencimento. Por isso, dizer apenas “larga esse celular” costuma produzir conflito, mas pouco desenvolvimento. Proibição sem educação cria vigilância. O objetivo deveria ser construir autorregulação.

Pais podem observar quatro indicadores: sono, concentração, humor após o uso das redes e aquilo que o celular está substituindo. O problema não é apenas quantas horas o jovem permanece conectado, mas se deixa de dormir, estudar, conversar, praticar atividade física ou fazer atividades que antes lhe davam prazer.

Também vale criar espaços de proteção cognitiva: estudo sem notificações, refeições sem celular e aparelho fora do quarto durante o sono. E existe algo que parece estranho nesta geração: permitir momentos de tédio. O tédio pode ser o intervalo em que o cérebro organiza pensamentos, cria e aprende a não depender de estimulação permanente.

Os adultos também precisam entrar nessa conversa com coerência. Não funciona exigir que o adolescente guarde o aparelho enquanto os pais atravessam o jantar respondendo mensagens.

Talvez a pergunta mais produtiva não seja “como faço meu filho usar menos o celular?”, mas “que capacidade ele precisa desenvolver para escolher quando usar e quando parar?”. Essa mudança transforma controle em educação.

Quando aparecem prejuízos persistentes no sono, rendimento escolar, memória, organização, humor ou controle do uso, é importante olhar além da tela. Ansiedade, TDAH, dificuldades de aprendizagem e sofrimento emocional podem coexistir e amplificar esse padrão. Uma avaliação psicológica ou neuropsicológica pode ajudar a diferenciar hábito, vulnerabilidade e sofrimento.

Criar um adolescente preparado para o mundo digital não significa afastá-lo da tecnologia. Significa garantir que, em meio a tantos estímulos disputando sua atenção, ele continue capaz de dirigir a própria mente.

Se você chegou até aqui, talvez esse texto faça sentido. Vamos conversar?

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